- Uma pesquisa conduzida pela Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia ampliou o conhecimento sobre os polinizadores encontrados em áreas produtoras de soja no Brasil. O trabalho identificou 27 novos registros de abelhas nativas associados à cultura em propriedades do sudoeste de Goiás, reforçando a importância da vegetação do Cerrado e de práticas agrícolas que favoreçam a biodiversidade nas lavouras.
- O levantamento foi realizado durante a safra 2023/2024 em sete fazendas da região. Ao longo de 30 saídas de campo, pesquisadores coletaram 11.199 insetos, dos quais 764 eram abelhas. Após a identificação do material, foram reconhecidas 53 espécies distribuídas em 27 gêneros e cinco famílias: Apidae, Andrenidae, Megachilidae, Colletidae e Halictidae.
- A maior parte dos exemplares encontrados pertence à fauna brasileira. Segundo os dados consolidados pela Embrapa, 89% das abelhas coletadas eram nativas, enquanto 11% correspondiam à Apis mellifera, espécie exótica amplamente presente no País. O resultado chama atenção para a diversidade de polinizadores silvestres que utiliza tanto as lavouras quanto os remanescentes de vegetação existentes no entorno das propriedades.
- Os 27 registros anunciados pela Embrapa não significam a descoberta de 27 espécies desconhecidas pela ciência. O avanço está no registro de abelhas nativas associadas à cultura da soja, ampliando o conhecimento sobre quais espécies frequentam esse ambiente agrícola. A identificação taxonômica contou também com a colaboração da pesquisadora Favízia Freitas de Oliveira, da Universidade Federal da Bahia (UFBA).
- Os resultados fazem parte das pesquisas do Regenera Cerrado, iniciativa que acompanha propriedades rurais no sudoeste goiano e compara diferentes práticas de manejo. Entre os aspectos analisados estão biodiversidade, uso de bioinsumos, saúde do solo, produtividade e conservação da vegetação nativa. O projeto reúne Embrapa, Instituto BioSistêmico, universidades e outras instituições, com patrocínio da Cargill.
- Um dos pontos observados é a relação entre a proximidade da vegetação nativa e a presença de polinizadores. Segundo os pesquisadores, áreas próximas a manchas de mata apresentam, em determinados locais avaliados, maior abundância e diversidade de abelhas. Esses remanescentes oferecem recursos importantes aos insetos, como locais de abrigo e fontes de alimento fora do período de floração da soja.
- Dados divulgados pela Cargill sobre o Regenera Cerrado indicam que áreas regenerativas próximas à vegetação nativa registraram aumento médio de 7% no peso dos grãos. O resultado é tratado como uma evidência dos benefícios associados às práticas regenerativas e à manutenção da vegetação, e não como prova de que apenas a presença das abelhas seja responsável, isoladamente, por todo esse ganho.
- Embora a soja seja uma cultura predominantemente autopolinizada, pesquisas anteriores da própria Embrapa já demonstraram que a visitação de abelhas pode favorecer a formação das vagens e dos grãos. A instituição informa que estudos com polinização suplementar já registraram ganhos de produtividade da soja, mostrando que a convivência entre produção agrícola e polinizadores pode trazer benefícios ao agricultor.
- A forma de manejo da lavoura também entrou no radar dos pesquisadores. Resultados preliminares do Regenera Cerrado apontaram impacto negativo de fungicidas classificados em níveis mais elevados de periculosidade sobre a diversidade das comunidades de abelhas. Em sentido contrário, propriedades com maior adoção de produtos biológicos e redução de químicos apresentaram comunidades de insetos mais diversificadas.