- Um resíduo comum da pecuária pode ganhar uma nova função na agricultura. Pesquisadores da China transformaram esterco bovino em uma película biodegradável para cobertura do solo e, em um experimento com milho para silagem, conseguiram manter a produção de matéria seca mesmo após reduzir em 30% a quantidade de fertilizante mineral aplicada. O estudo foi conduzido em uma área experimental de Minle, na província de Gansu, e avaliou o desempenho do material ao longo de 105 dias.
- Batizada de manure-based slurry film (MSF), a película é produzida a partir de esterco bovino processado e foi desenvolvida como alternativa ao filme convencional de polietileno utilizado na agricultura. Além de funcionar como cobertura do solo, o material se degrada durante o ciclo da cultura e libera matéria orgânica e nutrientes.
- No experimento, os pesquisadores compararam a MSF com a cobertura de polietileno em diferentes níveis de adubação mineral. Foram avaliadas aplicações correspondentes a 100%, 85% e 70% da dose de referência, sendo esta última equivalente a uma redução de 30%.
- Os resultados mostraram uma diferença significativa entre os sistemas quando a quantidade de fertilizante foi reduzida. Com a película de esterco e 30% menos adubação, o milho chegou a aproximadamente 230 gramas de matéria seca por planta na colheita. No tratamento com filme de polietileno e a mesma redução de fertilizante, o resultado ficou em torno de 195 gramas por planta.
- Segundo os pesquisadores, a resposta está relacionada às mudanças provocadas pela película no ambiente do solo. A MSF aumentou a disponibilidade de alguns nutrientes e alterou a comunidade de microrganismos, favorecendo processos que ajudam na disponibilização de nitrogênio, fósforo e potássio para as plantas.
- O estudo também observou efeitos sobre as raízes. Em determinadas fases do desenvolvimento, os tratamentos com MSF apresentaram maior acúmulo de matéria seca nas raízes em comparação com os tratamentos utilizando filme de polietileno. Na fase de enchimento dos grãos, o fósforo disponível no solo sob a película de esterco também apresentou níveis superiores aos observados no sistema convencional.
- A tecnologia também chama atenção pelo potencial de aproveitar um resíduo produzido em grandes quantidades pela pecuária. O esterco bovino passa a ser utilizado na própria produção agrícola, criando uma possibilidade de integração entre criação de animais, manejo de resíduos e produção de alimentos.
- Mas os pesquisadores fazem uma ressalva importante: ser biodegradável não significa automaticamente ter menor impacto ambiental. A análise de ciclo de vida realizada no estudo apontou que a produção da MSF apresentou impactos ambientais superiores aos do filme de polietileno em diferentes categorias avaliadas. O consumo de água e energia durante a fabricação está entre os fatores que precisam ser reduzidos para que a tecnologia se torne mais eficiente ambientalmente.
- A pesquisa, publicada em 2026 na revista Frontiers of Agricultural Science and Engineering, representa uma etapa experimental e não significa que a película já possa substituir o plástico agrícola em qualquer situação. Os próprios pesquisadores apontam a necessidade de aprimorar o processo de fabricação e reduzir seu impacto ambiental antes de uma aplicação em maior escala.
- Ainda assim, o resultado abre uma frente de pesquisa que combina dois desafios da agricultura: o aproveitamento de resíduos da pecuária e a redução do uso de fertilizantes minerais. No experimento realizado na China, a película de esterco conseguiu manter o desempenho do milho para silagem mesmo com uma redução de 30% na adubação mineral, mostrando potencial para futuras aplicações caso os custos e os impactos da produção sejam reduzidos.