3 de outubro de 2026
Feijão carioca completa 60 anos e história começou com uma mutação encontrada em lavoura de SP
Publicado em 23 de setembro de 2026 - 10h23
  1. Um dos alimentos mais presentes no prato dos brasileiros completa 60 anos de desenvolvimento científico em 2026, depois de surgir de uma descoberta inesperada em uma lavoura no interior de São Paulo. A história do feijão carioca começou no início da década de 1960, em Ibirarema, quando o agrônomo Waldimir Coronado Antunes identificou plantas com grãos rajados diferentes dos feijões cultivados na região. O material foi selecionado e, em 1º de agosto de 1966, 30 quilos de sementes chegaram ao Instituto Agronômico (IAC), em Campinas, dando início a uma trajetória de pesquisas que transformaria o grão em referência nacional.
  2. Na época, o feijão encontrado apresentava características que chamaram a atenção dos pesquisadores. As plantas eram mais vigorosas e produtivas, apresentavam menor suscetibilidade a doenças e tinham boa qualidade culinária. Os primeiros ensaios realizados entre 1967 e 1969 registraram produtividade média de 1.670 quilos por hectare, acima dos cerca de 1.280 quilos por hectare obtidos por variedades tradicionais daquele período.
  3. Depois de chegar ao IAC, o material foi catalogado como I-38700 e passou a ser estudado pelos pesquisadores Luiz D’Artagnan de Almeida, Shiro Miyasaka e Hermógenes Freitas Leitão Filho. O trabalho transformou uma descoberta feita no campo em uma cultivar com características avaliadas cientificamente e adaptadas às condições de cultivo.
  4. A nova variedade foi lançada comercialmente em 1969, mas a aceitação não aconteceu imediatamente. Os consumidores estavam acostumados a feijões de coloração mais uniforme e estranharam o aspecto rajado dos grãos. A divulgação feita por pesquisadores e técnicos, com distribuição de sementes, campos demonstrativos, palestras e informações sobre o produto, ajudou a popularizar a novidade. Na década de 1970, o carioca já havia se espalhado para diferentes regiões do país.
  5. E o nome também tem uma história curiosa. Apesar de muita gente associá-lo ao Rio de Janeiro, a denominação “carioca” não surgiu por causa do estado ou da cidade. Segundo o registro histórico divulgado pela Secretaria de Agricultura e Abastecimento de São Paulo, um trabalhador da propriedade onde o material foi identificado comparou os grãos rajados à pelagem de porcos crioulos que eram chamados de “cariocas”. A explicação para o nome só foi registrada oficialmente pela CATI décadas depois, em uma publicação de 2000.
  6. A importância do grão ultrapassou as lavouras paulistas. De acordo com a Secretaria de Agricultura e Abastecimento de São Paulo, o feijão carioca responde atualmente por cerca de 60% do consumo nacional e se tornou o principal tipo de feijão comercializado no mercado interno brasileiro.
  7. A pesquisa também não parou na cultivar original. O Instituto Agronômico mantém em seu catálogo diferentes cultivares de feijão do grupo carioca desenvolvidas ao longo das décadas, incluindo materiais selecionados para produtividade, resistência a doenças e outras características agronômicas.
  8. Estudos reunidos pela Embrapa mostram ainda que a cultivar original serviu de base para trabalhos posteriores de melhoramento genético. A pesquisa sobre a origem do tipo carioca aponta que sua formação está relacionada a mutações e/ou cruzamentos naturais em materiais locais, enquanto estudos posteriores buscaram aproveitar a variabilidade genética existente no próprio material para desenvolver novas linhagens.
  9. Seis décadas depois daquele envio de sementes para Campinas, o que começou como uma diferença observada em uma plantação se transformou em uma das variedades mais reconhecidas da alimentação brasileira — um exemplo de como uma descoberta no campo pode ganhar escala nacional quando encontra a pesquisa científica.
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