Enquanto Mato Grosso do Sul vive a Semana Estadual de Combate ao Feminicídio, histórias marcadas pela dor de famílias que perderam filhas, mães e irmãs para a violência de gênero mostram que os números registrados nas estatísticas representam vidas interrompidas e feridas que permanecem abertas por anos.
Entre essas histórias está a de Leise Aparecida Cruz, assassinada em março de 2023, aos 40 anos, em Anastácio. Inicialmente tratado como morte natural, o caso teve uma reviravolta após a perícia identificar sinais de asfixia. Diante das evidências, o marido da vítima, Edson Campos Delgado, confessou o crime e foi condenado a 30 anos e seis meses de prisão.
Mais de três anos depois, a dor da família ainda se mistura à esperança. A filha de Leise, Leisiane Aparecida Cruz Vieira, descobriu que estava grávida no dia do velório da mãe. Agora, aguarda o nascimento da filha, que receberá o nome Maria Júlia Aparecida Cruz Vieira, numa homenagem à avó que jamais conhecerá.
“Ela era uma pessoa extremamente alegre, cheia de vida e de luz. Quem a conhecia sabia que iluminava qualquer ambiente”, recorda Leisiane.
Segundo familiares, o feminicídio não foi um fato isolado. O relacionamento era marcado por comportamentos possessivos, ciúmes excessivos e controle constante. Após o crime, parentes divulgaram um manifesto afirmando que a tragédia foi resultado de um ciclo contínuo de violência.
“Não foi um ato de impulso, nem uma fatalidade. Foi o desfecho cruel de um ciclo de violência, opressão e machismo”, destacou a família.
Dor que atravessa gerações
Outra história que simboliza os impactos do feminicídio é a da técnica de enfermagem Karolina Silveira Pereira, assassinada aos 22 anos. Três anos após o crime, a mãe da jovem, Patrícia da Silva Leite, afirma que ainda convive diariamente com as consequências da tragédia.
Karolina foi morta após sofrer meses de violência psicológica e chantagens emocionais. Na ocasião, um amigo da jovem, identificado como Luan, também foi assassinado ao tentar defendê-la.
“Ela escolheu uma profissão para ajudar a salvar vidas. Era uma menina sorridente, cheia de sonhos”, relembra a mãe.
Patrícia conta que, além da perda da filha, a família precisou abandonar a casa recém-adquirida por medo de represálias. O imóvel, que simbolizava a realização de um sonho, foi vendido após o crime.
“A recuperação não acontece de imediato. Existem dias muito difíceis. A terapia, a medicação e o trabalho ajudam, mas a saudade permanece”, afirma.
Mesmo após a condenação do autor a 45 anos de prisão, o sentimento de injustiça persiste.
“Minha filha teve a vida interrompida aos 22 anos. Já quem a matou terá a chance de voltar à liberdade um dia. É uma conta que não fecha para quem ficou”, desabafa.
Quase 400 vítimas em pouco mais de uma década
Dados do Observatório da Cidadania da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) mostram a dimensão do problema. Entre 2015 e 2026, o Estado registrou 394 vítimas de feminicídio.
Os anos mais violentos foram:
- 2024: 45 vítimas;
- 2022: 44 vítimas;
- 2020: 40 vítimas;
- 2025: 39 vítimas.
Somente em 2026, considerando os dados parciais, já foram contabilizadas 13 vítimas.
Os números revelam que o feminicídio permanece como um dos principais desafios relacionados à segurança pública e aos direitos das mulheres em Mato Grosso do Sul.
Combate exige punição, proteção e educação
Para a juíza da 3ª Vara da Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, Tatiana Decarli, a redução dos índices depende de uma atuação integrada entre Justiça, rede de proteção e educação.
“O cenário de altos índices de feminicídio é um fenômeno complexo e exige atuação em múltiplas frentes. Não se trata de escolher entre punição ou proteção, mas de fortalecer ambas as estratégias”, afirma.
Segundo a magistrada, embora leis mais rígidas sejam importantes, a rapidez da resposta do sistema de Justiça e o fortalecimento da rede de acolhimento são fundamentais para evitar que a violência evolua até o assassinato.
Ela destaca ainda um dado preocupante: cerca de 87% das vítimas de feminicídio nunca chegaram a solicitar medida protetiva, segundo levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
“A maioria dos casos acontece sem que a mulher tenha conseguido acessar a rede de proteção ou após falhas nesse sistema”, alerta.
Semana de conscientização busca salvar vidas
Autor da Lei Estadual nº 5.202/2018, que instituiu a Semana Estadual de Combate ao Feminicídio, o deputado estadual Professor Rinaldo Modesto afirma que os números continuam alarmantes.
“Cada mulher assassinada representa uma vida interrompida, uma família destruída e filhos marcados para sempre pela dor. Essa luta não é apenas das mulheres, é de toda a sociedade”, declarou.
Para especialistas e familiares das vítimas, combater o feminicídio passa não apenas pela punição dos agressores, mas também pela educação, conscientização e fortalecimento das políticas públicas de prevenção.
Enquanto novas vítimas continuam surgindo nas estatísticas, histórias como as de Leise e Karolina lembram que, por trás de cada número, existem famílias tentando reconstruir suas vidas após perdas irreparáveis.