- Um sistema de inteligência artificial desenvolvido pela produtora de biocombustíveis Inpasa em Mato Grosso do Sul reduziu de 15 para dois minutos o tempo de análise de documentos de caminhoneiros que acessam usinas de etanol de milho da empresa. A solução, criada para automatizar a conferência de motoristas e veículos, colocou a companhia entre as finalistas do 9º Prêmio Nacional de Inovação da CNI (Confederação Nacional da Indústria).
- O sistema confere documentos como CNH (Carteira Nacional de Habilitação) e dados de motoristas terceirizados, transportadores e clientes, que passam por consulta antes de acessar as usinas para o carregamento e distribuição dos produtos da companhia. A partir de março de 2025, a inovação passou a ser implementada em todas as seis unidades brasileiras do grupo, que opera com capacidade de produção de 6,2 bilhões de litros de etanol por ano e receita próxima de R$ 23 bilhões.
A verificação ocorre por aplicativo ou portal, por meio dos quais os motoristas podem enviar previamente seus documentos e os do veículo. Robôs realizam as validações necessárias para que, quando o motorista chegar às usinas, toda a documentação esteja regularizada para acessar as unidades produtivas e realizar o carregamento. O sistema também cruza informações com diferentes bases e órgãos, garantindo mais agilidade e confiabilidade na verificação.- Em Mato Grosso do Sul, a usina está presente em Dourados desde 2022, integrando a expansão da empresa e do setor de biocombustíveis no Estado. A CNI informou ao Campo Grande News que a tecnologia foi inscrita pela Inpasa (MS) na categoria “IA para produtividade – grande empresa”. É a única finalista do Estado entre os 59 projetos selecionados no país.
- A premiação será entregue em 26 de março, no 11º Congresso de Inovação da Indústria, no WTC, em São Paulo. O programa é fruto de parceria entre a Mobilização Empresarial pela Inovação (MEI), da CNI, o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.
- Desembaraço
- Os projetos finalistas são de empresas de diferentes portes, ecossistemas de inovação e pesquisadores de 17 estados reconhecidos pelos investimentos e resultados em inovação.
- O gerente de tecnologia da Inpasa Brasil, Marco Smanioto, afirmou que a solução tecnológica originada na unidade de Mato Grosso do Sul abriu caminho para o grupo ampliar o uso de automação e hiperautomação (combinação de inteligência artificial e robôs de software) na conferência de documentos de motoristas e veículos transportadores dos produtos fabricados pela empresa no Brasil. Com isso, a necessidade de trabalho manual foi reduzida. Além de tornar o fluxo mais rápido, a automação permitiu a realocação dos oito funcionários que antes se revezavam na conferência manual dos documentos.
- “Essa foi a primeira tecnologia de mais de 100 automações já desenvolvidas pela companhia. Ela começou focada na conferência automática de veículos e motoristas. Hoje, toda essa verificação é feita de forma 100% automática, baseada em RPA (Automação Robótica de Processos), o que abriu caminho para implementarmos outras conferências em cadeia”, disse Smanioto, que não quis detalhar os investimentos em ciência e tecnologia do grupo no Estado.
- “Quando fizemos a inscrição do prêmio, todo esse processo ainda estava em fase de testes no Estado. Por isso indicamos Mato Grosso do Sul como origem da iniciativa. Naquele momento, o projeto ainda não existia em outras unidades, como Sinop ou Campinas.”
- A unidade de Sinop, em Mato Grosso, é hoje a maior unidade de produção de etanol de milho da América Latina e uma das maiores do mundo do grupo. Os testes não são conduzidos ali porque qualquer erro pode gerar grande impacto na operação, devido à dimensão e ao volume de produção. Já a usina de Mato Grosso do Sul, que está entre as três maiores do grupo, reúne maior número de engenheiros e pesquisadores.
- Segurança
- “Geralmente, nossos projetos piloto são feitos em Mato Grosso do Sul. Temos algumas automações rodando apenas no Estado porque é uma planta relativamente nova e temos acesso mais próximo à operação. Por isso, muitos testes acabam sendo feitos ali antes de serem replicados para outras unidades.”
- Segundo Smanioto, a conferência visual dos documentos não era totalmente segura e ainda deixava margem para fraudes de documentos pela análise física e manual.
- “A tecnologia foi desenvolvida por nós utilizando ferramentas de mercado, como Python e inteligência artificial do Google. Ela se encaixa dentro do uso do nosso ERP.”
- Outras empresas podem adotar soluções semelhantes, embora os códigos tenham sido desenvolvidos pela própria equipe da Inpasa.
- Agilidade no fluxo
- Antes da automação, oito funcionários analisavam manualmente cerca de 300 cadastros por dia. O processo levava, em média, 15 minutos por verificação e era realizado em vários turnos ao longo de quase 24 horas para atender à demanda. Com o novo sistema, o tempo de análise caiu para cerca de dois minutos.
- A mudança beneficiou diretamente cerca de 18 mil profissionais que realizam serviços todos os meses para as usinas. Embora não sejam funcionários diretos – já que incluem motoristas terceirizados, transportadores e clientes – todos passam pelo processo de conferência antes de acessar as unidades produtivas.
- Desde a implementação da ferramenta, a empresa já realizou aproximadamente 84 mil conferências automatizadas de veículos e mais de 33 mil de motoristas.
- Impacto socioambiental
- Além de racionalizar os processos logísticos, a tecnologia também gera impactos socioambientais positivos. Entre eles estão a redução do tempo de espera com caminhões ligados, do fluxo nas rodovias e das filas nos pátios das usinas.
- “Muitas vezes, quando a documentação era reprovada, o motorista precisava retornar em outra oportunidade ao local, gerando deslocamentos desnecessários e custos logísticos adicionais”, disse.
- Outro ganho ocorreu para os colaboradores que antes trabalhavam em jornadas praticamente contínuas, divididas em turnos ao longo de 24 horas para realizar as conferências. Com a automação, esses profissionais passaram a se dedicar a atividades mais estratégicas e foram realocados para outras funções dentro da equipe de faturamento.
- Segundo Smanioto, a tecnologia finalista nasceu em paralelo ao projeto do CSC (Centro de Serviços Compartilhados), instalado em Campinas, no interior paulista. O local concentra a área administrativa do grupo, centralizando gestão e governança.
- “Escolhemos Campinas principalmente pela disponibilidade de mão de obra e mobilidade. Assim, acabamos concentrando todo o time nessa unidade.”
- A engenheira Gabriela Fernandes Vieira, especialista da CNI, afirmou que o prêmio busca reconhecer iniciativas de inovação que aumentem a competitividade da indústria brasileira.
- A Inpasa mantém oito biorrefinarias agrícolas – duas no Paraguai e seis no Brasil – e prevê novas unidades em um programa de investimentos superior a R$ 5 bilhões.