- O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, defendeu a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos em casos de crimes hediondos durante sabatina exibida pelo Jornal Nacional, da TV Globo, na noite de quinta-feira (15). Ao responder à jornalista Renata Lo Prete, Lula afirmou que apoia a mudança, mas defendeu que o assunto seja discutido separadamente da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, que tramita no Congresso Nacional.
- “Meu pensamento, enquanto cidadão, eu sou a favor de reduzir a maioridade penal para todo e qualquer crime hediondo. Mas a PEC não estava discutindo isso. Eu sou favorável a reduzir para 16 anos, mas não nessa PEC. Aprova a PEC e aí discute isso”, declarou o presidente.
- A manifestação ocorre em meio à discussão de propostas que buscam alterar as regras de responsabilização criminal de adolescentes. Uma emenda apresentada pela oposição no Senado prevê reduzir a maioridade penal para 16 anos em determinadas situações e para 14 anos em casos específicos, como crimes hediondos. Outra proposta, articulada no campo governista, defende a redução para 16 anos exclusivamente para crimes dessa natureza.
- A PEC da Segurança Pública, identificada como PEC 18/2025, teve sua análise concluída pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado em 14 de outubro e chegou a entrar na pauta do plenário no dia seguinte. No entanto, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), retirou a matéria da agenda de votação para permitir mais discussões e buscar um acordo sobre as emendas apresentadas. Até esta sexta-feira (16), não havia uma nova data confirmada para a votação.
Segurança pública e combate ao crime organizado
- Durante a entrevista, Lula defendeu a aprovação da PEC da Segurança Pública e afirmou que o governo federal precisa ampliar sua participação no enfrentamento da criminalidade nos estados. Segundo ele, a proposta permitirá reorganizar as atribuições das forças policiais e fortalecer a atuação da União no combate às organizações criminosas.
- O presidente também voltou a defender a criação de um Ministério da Segurança Pública, separado do Ministério da Justiça, e afirmou que pretende ampliar as ações contra facções criminosas que atuam dentro e fora dos presídios.
- “Precisamos asfixiar o crime organizado para libertar os territórios dos bandidos em todo o país”, declarou.
- A proposta em discussão no Senado prevê maior integração entre os órgãos de segurança pública, além de medidas para fortalecer o combate ao crime organizado e ampliar a participação federal na área. A retirada temporária da matéria da pauta, porém, adiou a possibilidade de conclusão da votação nesta semana.
Economia, dívida pública e Bolsa Família
- Questionado sobre a dívida pública e a situação fiscal do país, Lula defendeu uma política econômica baseada no aumento da renda da população de menor poder aquisitivo. Para o presidente, a circulação de dinheiro entre as famílias estimula o consumo e movimenta a economia.
- “Eu tenho uma tese: muito dinheiro na mão de poucos é pobreza, e pouco na mão de muitos é riqueza. O que faz a economia do Brasil crescer é a microeconomia, é fazer o dinheiro rodar na mão do povo”, afirmou.
- Lula também declarou que o Brasil avançou da 12ª para a 10ª posição entre as maiores economias mundiais durante seu governo e atribuiu o resultado aos investimentos e às políticas voltadas à população mais pobre.
- Ao falar sobre o equilíbrio das contas públicas, o presidente criticou medidas de ajuste fiscal que, segundo ele, penalizam os mais vulneráveis. “A forma de fazer crescer a economia não é cortar do pobre”, disse.
- Outro tema abordado foi o Bolsa Família. Lula afirmou que decidiu reajustar os benefícios em 15% depois de tomar conhecimento de que os valores não haviam sido atualizados desde a retomada do programa em 2023. O governo anunciou a recomposição em setembro, com o valor mínimo por família passando de R$ 600 para R$ 691 a partir de outubro. O benefício médio estimado passou para R$ 777.
- O presidente também citou medidas anunciadas pelo governo para apoiar microempreendedores individuais (MEIs) e defendeu a criação de uma política nacional de transporte público gratuito aos fins de semana.
Tarifa zero no transporte público
- Na área de mobilidade, Lula anunciou que pretende enviar ao Congresso uma proposta de emenda à Constituição para garantir transporte público gratuito aos sábados e domingos em cidades brasileiras que disponham de serviço coletivo.
- A iniciativa, apresentada também nas redes sociais, prevê o uso de recursos orçamentários e emendas parlamentares para financiar a medida. A proposta ainda depende de elaboração, envio ao Congresso e aprovação legislativa, portanto não está em vigor.
- Lula relacionou a ideia à redução da jornada de trabalho e ao fim da escala 6x1, aprovada pelo Senado em 14 de outubro. Segundo ele, a ampliação do tempo livre dos trabalhadores deve vir acompanhada de condições para que as famílias possam circular pelas cidades e aproveitar os fins de semana.
Relação com os Estados Unidos e tarifaço
- A política comercial brasileira também esteve entre os assuntos da sabatina. Ao comentar as tarifas impostas pelo governo dos Estados Unidos, Lula afirmou que o país tem buscado ampliar relações com outros parceiros comerciais para reduzir os efeitos da queda nas exportações destinadas ao mercado norte-americano.
- Segundo o presidente, enquanto o comércio com os Estados Unidos registrou recuo de 9%, as relações comerciais brasileiras cresceram 20% com a China, 15% com a Indonésia e 16% com a Alemanha. Lula também afirmou que o Brasil alcançou recordes de superávit comercial.
- Os percentuais foram apresentados pelo presidente durante a entrevista e se referem aos indicadores que ele utilizou para sustentar sua avaliação sobre a diversificação dos mercados. A comparação depende do período e dos indicadores considerados.
- Apesar das críticas às medidas comerciais norte-americanas, Lula afirmou que prefere negociar uma solução diretamente com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Ele, no entanto, não descartou a aplicação da Lei da Reciprocidade Econômica caso as negociações não avancem.
- “Eu não quero aplicar a Lei da Reciprocidade, mas, se tiver que fazer, nós vamos. Eles têm mais a perder que a gente”, afirmou.
- A sabatina reuniu temas centrais da campanha presidencial, incluindo segurança pública, economia, programas sociais e relações internacionais, a dez dias do segundo turno das eleições, marcado para 25 de outubro.